O mercado das idéias
As notícias desafiam os limites da velocidade, enquanto tento apenas atravessar a rua e chegar viva ao outro lado.
Todas as idéias, todos os conceitos, as verdades e as mentiras passam olhando nos nossos olhos todos os dias. Desatentos, vemos cigana tentação disfarçada de beleza, e assim seguimos nossa maior e mais sincera repugnância. Lá na frente, quando a maquiagem da ilusão borra e o lenço se desfaz enroscado nos galhos do caminho, voltamos para a feira de escolhas, na promessa de não nos deixarmos seduzir por qualquer aparência.
Na loucura da cidade mora em todos o mesmo desejo, mas o egoísmo passa cadeado nas grades que tornam a rotina insuportável. Se ao menos aos corações fosse dada a liberdade de dialogar..!
Todas as árvores, todos os rios, todas as estrelas, todas as aves e todos os animais são mapas que decifram o enigma existente em cada olhar.
Precisamos aprender a ver, ouvir e expressar - ou será que nos tornamos tão vazios a ponto de restarem apenas alguns poucos assuntos os quais somos capazes de compartlhar, aqueles mesmos impostos pelos cabos e satélites dos canais artificiais de comunicação?
Que medo é este, que não permite a individualidade, o frescor das idéias, o aconchego de um longo abraço? Por que tanto julgar, cadê o compreender, será que a admiração pelo o que existe de puro e intacto está tão seriamente ferida, que não tem forças mais sequer para passear entre nós?
O planeta, este solo sagrado que nos abriga. A poeira dos sonhos não realizados é tão densa que nos cega, age como gases expelidos pelo fogo: distorce a visão, torna-nos seres incapazes e tolos, fúteis, egoístas errantes em busca de virtual alegria gerada pela refração. Como pode alguém agir como rocha inanimada diante de imagens fortes como miséria, fome, sofrimento e doença? Como pode alguém satisfazer sonho de consumo e não se abalar pelo grito de injustiça que consome os pulmões do mundo?
Será que as britadeiras implodiram nossos tímpanos, e nossas orelhas já não sangram mais? E será que o medo se fez tão presente que já não importa a falta de educação, apenas o arranhão no carro importado, que viola a refração de segurança e propriedade? E as belas emoções, que aconteceu com elas? Será que nos tornamos tão ranzinzas a ponto de não sabermos mais brincar como crianças, e somente uma plástica é capaz de pôr largo sorriso no rosto? Perdemos para sempre o combustível da maravilhosa explosão que nos emociona diante um milagre, desses com que a vida nos presenteia com freqüência?
Em um lapso de lucidez volto a caminhar por entre as barracas prometendo, mais uma vez, olhar fundo na alma antes de seguir ilusão.
Fly [10:54 PM]